No salão de Carol Bispo, entre cremes e penteadeiras, revelam-se inseguranças e memórias de exclusão. A visagista percebeu que muitas dores das suas clientes não eram apenas estéticas, mas sim frutos de um racismo estético mulheres negras tão arraigado que mal sabiam nomeá-lo.
Portanto, foi a partir dessa vivência diária e da carência de respostas que Carol mergulhou na Psicologia. Ela buscava entender o comportamento e a autoestima de mulheres em transição capilar, que frequentemente se desestimulavam no processo.
“O racismo é a resposta real”, afirma Carol Bispo, que descobriu isso no nono semestre de Psicologia. Ela considera impossível falar de beleza sem abordar a estrutura social. “Existe o racismo estético, uma forma de racismo estrutural onde o padrão europeu ainda predomina.”
Racismo Estético e Microagressões
Segundo a visagista, a maioria das mulheres nem sequer percebe as microagressões. Estas são expressões sutis, naturalizadas como brincadeiras, que corroem a subjetividade, gerando ansiedade e depressão. Assim, é fundamental considerar esses aspectos ao discutir o racismo, especialmente no que tange à estética.
Essas microagressões visam diretamente os traços. “Quando o agressor atinge a pessoa negra, afeta diretamente os seus traços”, explica Carol. Ela questiona como identificar e nomear essas agressões quando são tratadas como brincadeira. O cabelo “Bombril”, o cabelo “ruim”, ou “você fica melhor com o cabelo liso” são exemplos desse colonialismo, segundo ela.
Além disso, essas experiências são dolorosas e frequentes, moldando a percepção de si mesmas. A busca por aceitação em um padrão eurocêntrico muitas vezes leva à negação da própria identidade.
A Jornada da Consciência Negra
Dessa urgência nasceu a Jornada da Consciência Negra, uma série de encontros promovidos por Carol até o fim de novembro. Esses encontros unem estética, psicologia e educação antirracista para criar um espaço seguro de reflexão e reconhecimento. “O padrão europeu ainda exerce grande influência”, pontua Carol.
A potência dessa discussão fica clara no cotidiano do salão. Carol recorda de uma médica que buscava orientação sobre alisar ou não o cabelo. A cliente se queixava do frizz e de como o cabelo parecia “desarrumado” em eventos. Contudo, algo mais profundo a afligia.
Ao perguntar qual era o grande desafio, a cliente revelou ter sido excluída de uma foto oficial de um evento profissional por não ter traços europeus. “Ela não tinha percebido a agressão”, conta Carol, “e estava me contando aquilo como se o cabelo cacheado fosse o problema.” Ao nomear a agressão, a cliente desabou, lembrando-se de todo o racismo sofrido desde a infância.
Histórias como essa demonstram a profundidade das feridas. “O cabelo é um dos pontos centrais de ataque”, mas a falta de autoconhecimento leva à rendição aos padrões eurocentrados. No entanto, o racismo não cessa.
Carol também compartilhou sua própria experiência: uma pessoa sugeriu que ela fizesse uma cirurgia para empinar o nariz para ficar mais bonita. “Aquilo não me incomodava; incomodava o olhar do outro”, afirma, rindo da situação hoje.
A mulher negra cresce sob um olhar colonizador que tenta limitar seus espaços. Consequentemente, a pessoa negra é desqualificada constantemente, sendo frequentemente associada apenas a ambientes servis, e não intelectuais.
O Caminho para a Autodescoberta
Carol acredita que a conversa sobre racismo estético mulheres negras precisa ser permanente. “É um assunto muito profundo e precisa ser debatido.” Ela se vê como uma nova Carol, além de visagista, trazendo um olhar social para uma comunidade que necessita de apoio.
A data de 20 de novembro é perfeita para essa discussão, para desconstruir e construir mulheres potenciais. “Quando falamos da mulher negra, temos que lembrar que ela é subalternizada – junto à cor, há ainda a questão de gênero.”
Seu trabalho une visagismo e psicologia como ferramentas de reconstrução. “A psicologia dentro desse combate faz o indivíduo se sentir mais potente, ter voz para falar e não se intimidar com o padrão europeu.” Sua trajetória é um testemunho disso.
O processo pessoal a fez revisitar dores antigas. “Se eu tivesse o conhecimento, minha mãe estaria viva.” Sua mãe, ela revela, morreu de uma dor invisível, uma dor na alma, e não de tristeza como ela acreditava na época. “A psicologia me salva porque eu me percebo.”
A mensagem para as mulheres em transição – estética, emocional ou identitária – é simples e poderosa. “Que elas se permitam.” Para isso, é necessário sair da zona de conforto, o que leva ao nascimento de uma nova mulher. Permitir-se é libertador, mas também desafiador, conclui Carol Bispo.










