Mato Grosso lidera feminicídios; vítimas não tinham medidas protetivas

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Mato Grosso está na dianteira nacional do feminicídio pelo segundo ano consecutivo. Em 2024, 47 mulheres foram assassinadas por serem mulheres, superando os 46 casos do ano anterior. A taxa é de 2,5 feminicídios a cada 100 mil mulheres, a maior do país.

Esses dados, divulgados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, servem como um alerta sobre uma cultura que ainda permite e legitima mortes de mulheres por desafiarem papéis impostos.

Feminicídio: controle e ódio, não paixão

Ao contrário do que muitos pensam, o feminicídio não é uma tragédia repentina ou um “crime passional”. É a consequência de um sistema de dominação, um ato de controle, posse e ódio.

“O agressor não perde o controle. Ele exerce controle. Ele mata para reafirmar uma autoridade que acredita ser sua por direito. Como explica a antropóloga Rita Laura Segato, o feminicídio não é movido por emoção desgovernada, mas por um “mandato de masculinidade”.”

Sociedade sabia e se calou

No primeiro semestre de 2023, 80% das vítimas de feminicídio em Mato Grosso não possuíam medida protetiva ativa. Mais da metade não registrou boletim de ocorrência, e 67% das famílias sabiam da violência, mas não denunciaram.

Essa omissão reflete o cruel ditado popular: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Essa frase naturaliza a violência doméstica como algo privado, quando, na verdade, é um crime público com profundas raízes sociais.

A raiz do problema: machismo estrutural

A lógica da dominação masculina é aprendida desde cedo. Meninos são socializados para dominar, reprimindo emoções e aprendendo que a força se impõe sobre o diálogo.

A desigualdade de gênero é visível em diversos âmbitos:

  • Mulheres ganham, em média, 22% menos que homens na mesma função.
  • Apenas 17% das cadeiras no Congresso Nacional são ocupadas por mulheres.
  • Cargos de chefia em empresas são majoritariamente masculinos.
  • O cuidado com a casa e os filhos recai predominantemente sobre as mulheres, mesmo quando trabalham fora.

Essa estrutura comunica que a mulher vale menos, sua palavra importa menos e sua autonomia é perigosa.

O perigo está ao lado

Quase 80% dos feminicídios são cometidos por companheiros ou ex-companheiros. O perigo muitas vezes reside dentro de casa, na rotina do casal.

A saída para mulheres em relacionamentos abusivos não é simples. Dependência emocional, financeira e medo real impedem muitas de buscar ajuda. Sair pode ser o estopim da violência, e a liberdade, um risco à vida.

Naturalização da violência e falhas institucionais

A naturalização da violência se manifesta nas instituições que falham em proteger, nos julgamentos morais contra vítimas, no silêncio de vizinhos e familiares, na lentidão da justiça e na ausência de políticas públicas eficazes.

Uma medida protetiva, sem acompanhamento, é apenas um papel que não detém um agressor decidido a matar, apenas documenta o perigo conhecido e a morte evitável.

Educação para desconstruir o machismo

Formar meninos de outra maneira é urgente. Discutir feminicídio exige debater gênero na infância, relações afetivas na escola e ensinar sobre consentimento, respeito e equidade.

O espaço escolar deve ser um local de desconstrução da masculinidade que oprime e mata, exigindo coragem institucional, investimento e políticas públicas que combatam o machismo na base da formação social.

Feminicídio: consequência e permissão

Enquanto o feminicídio for tratado como exceção, ele continuará sendo rotina. Ignorar os sinais antes da morte legitima a posse e a estrutura que não age com urgência.

“Quem legitimou esse homem a matar? Quem legitimou que ele podia? Quem se calou enquanto ele ameaçava? Quem achou que era “briga de casal”? Quem disse que “ciúme é amor”? Quem não viu ou preferiu não ver?”

A repressão, embora necessária para combater a impunidade, não altera a raiz do problema. Sem mudança cultural radical na estrutura que legitima a inferiorização da mulher, nenhuma medida penal será suficiente.

Algemas prendem o agressor, mas não quebram a cultura que o formou. Enquanto essa cultura persistir nas escolas, famílias, empresas, política, mídia e instituições públicas, nenhuma mulher estará verdadeiramente protegida.

Quando a cultura não muda, o agressor não hesita. E a próxima vítima já se torna estatística antes mesmo de virar notícia.

Christiany Fonseca é Professora Efetiva no IFMT, Cientista Política e Doutora em Sociologia.

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