Ao longo de 2025, Mato Grosso foi marcado por episódios de violência envolvendo adolescentes dentro do ambiente escolar – casos que variaram de agressões físicas registradas em vídeo e espalhadas nas redes sociais a situações extremas, como ataques com arma branca entre colegas. Mesmo ocorrendo em municípios e períodos diferentes, os casos revelam um padrão de conflito entre jovens, muitas vezes praticados por adolescentes contra outros adolescentes, em espaços que deveriam ser de proteção, escuta e formação.
Em setembro, uma adolescente foi espancada por uma colega após uma postagem considerada ofensiva nas redes sociais. O episódio levou o governo do Estado a anunciar a transformação da unidade escolar em escola cívico-militar. Já em novembro, outro caso de violência ganhou repercussão ao mostrar uma aluna sendo atingida por um “chute voadora” dentro de uma escola, com a cena viralizando no TikTok. No mesmo mês, um estudante esfaqueou um colega em Alto Araguaia, ocorrência que, assim como no primeiro episódio, também resultou no anúncio do governo estadual sobre a conversão da escola em modelo cívico-militar.
Para a psicóloga Camila Maria da Silva, mestranda em Saúde Coletiva com pesquisa em saúde na infância e pós-graduanda em Neuropsicologia, esses episódios não podem ser analisados de forma isolada ou simplista. Segundo ela, a adolescência é uma fase de transição complexa, marcada pela saída da infância e pela busca intensa por referências para ingressar no mundo adulto.
“A adolescência costuma ser vista como uma fase confusa ou perturbada, mas ela não é um limbo. É uma etapa com características próprias, em que o jovem está se organizando subjetivamente, tentando entender quem ele é e como se posiciona no mundo”, explica.
Nesse processo, duas atividades têm papel central no desenvolvimento do adolescente: a comunicação íntima pessoal – ou seja, as relações que ele estabelece com os outros – e a formação de conceitos. É nesse contexto que a imitação dos adultos, a busca por pertencimento e a reprodução de comportamentos ganham força.
“O adolescente tende a imitar os adultos, a incorporar modos de agir, falar e se comportar porque ele precisa de repertório para transicionar para a vida adulta. Ele está buscando referências”, afirma a profissional.
O problema, segundo a psicóloga, é o tipo de referência que tem sido disponibilizado. Em uma sociedade fortemente marcada pela cultura do consumo, do individualismo e da meritocracia, constrói-se um ideal de sucesso muitas vezes inalcançável – e violento.
“Quando a gente olha para o que está disponível culturalmente, vemos uma ideia de que ser bem-sucedido é ter determinadas coisas. Isso aparece nas redes sociais, nas músicas, nas produções artísticas. Tudo isso vai formando o ideal de adulto que o adolescente almeja ser”, pontua.
A psicóloga alerta, no entanto, para o risco de análises superficiais que culpabilizam expressões culturais periféricas, como o funk. “Não se trata de vilanizar a arte que vem da periferia. Essas produções cantam realidades vividas. O problema não é a arte em si, mas quando ela se torna a única lente disponível para olhar o mundo, sem espaço para reflexão ou crítica.”
Na perspectiva de Camila Maria da Silva, a arte tem um papel central na formação de conceitos porque organiza modos de pensar e interpretar a realidade. Por isso, ela defende o fortalecimento de iniciativas culturais locais, capazes de dialogar com a vivência concreta dos jovens e oferecer outras possibilidades de identificação.
“Código de companheirismo”
Outro ponto fundamental é compreender que comportamentos violentos não surgem do nada. “Para que um comportamento exista como parte da personalidade de alguém, ele existiu antes no meio social. A criança ou o adolescente internaliza o que vê, se apropria disso e depois externaliza”, explica. “Se estamos vendo adolescentes violentos, é porque a violência está presente no meio em que eles vivem.”
A psicóloga também destaca a importância do pertencimento nessa fase da vida. A necessidade de ser aceito pelo grupo faz com que muitos jovens reproduzam comportamentos com os quais, individualmente, sequer concordam.
Existe o que chamamos de código de companheirismo”, pontua Camila Maria da Silva. O conceito, formulado pelo psicólogo soviético Daniel Elkonin e amplamente trabalhado pela Psicologia Social, ajuda a compreender como as relações entre pares se tornam centrais na adolescência. Nesse estágio do desenvolvimento, o jovem passa a organizar sua personalidade a partir das normas, valores e comportamentos que circulam nos grupos aos quais pertence ou deseja pertencer.
Segundo a psicóloga, é nesse movimento que o adolescente busca referências para se situar socialmente, entender quem é e qual lugar ocupa no mundo. “O grupo passa a funcionar como um parâmetro. Se a regra daquele coletivo é agir de determinada maneira, agir diferente significa correr o risco de não pertencer, de ser excluído”, explica. Esse mecanismo ajuda a entender por que muitos adolescentes reproduzem comportamentos violentos ou com os quais, individualmente, não se identificam plenamente, mas que se tornam uma forma de garantir aceitação e reconhecimento.
Para a profissional, esse processo está diretamente relacionado à maneira como a autonomia é construída — ou não — desde a infância. Ela defende que aprender a fazer escolhas, reconhecer desejos e sustentar posicionamentos próprios precisa ser um exercício contínuo, adequado à idade, mas presente desde cedo. “A gente quer adultos autônomos, críticos, capazes de tomar decisões, mas passa boa parte da infância dizendo apenas ‘não pode’. Quando chega a adolescência, cobramos maturidade sem ter ensinado como se constrói essa autonomia.”
Na avaliação da psicóloga, essa contradição fragiliza o jovem justamente no momento em que ele mais precisa de referências sólidas. Sem ferramentas internas para sustentar suas escolhas, o adolescente tende a se orientar exclusivamente pelas regras do grupo, mesmo quando elas envolvem violência, transgressão ou anulação de si. “Fortalecer a autenticidade e o senso de pertencimento saudável é uma forma de prevenção. É permitir que o adolescente exista no grupo sem precisar se violentar — ou violentar o outro — para ser aceito.”
A psicóloga critica respostas imediatistas do poder público, como no caso de Alto Araguaia, onde a solução encontrada foi a militarização da escola e a internação de adolescentes envolvidas na agressão extrema contra uma colega. A internação afasta o problema dos nossos olhos, mas não o resolve. “Esses adolescentes não são o problema, são sintomas de relações adoecidas”, analisa.
Segundo ela, quando o Estado, a família e a escola falham em oferecer referências sólidas e acolhimento, outros grupos ocupam esse espaço. “Se essas instâncias não agem, alguém vai agir. E muitas vezes são as facções criminosas que oferecem esse pertencimento que o adolescente está buscando.”
O papel do celular
Nesse contexto, o debate sobre o uso de celulares ganha centralidade. Entendidos hoje como o principal instrumento de acesso de crianças e adolescentes às redes sociais, à música, aos vídeos e às referências culturais do nosso tempo, os aparelhos não podem ser tratados apenas sob a lógica da proibição ou do controle rígido.
“Os celulares não vão deixar de existir. Precisamos pensar em como esse uso acontece, e isso envolve escutar os adolescentes, perguntar por que aquele conteúdo interessa, que sentido ele produz”, defende Camila.
Para evitar que episódios de violência continuem se repetindo, a psicóloga aposta em uma escola mais aberta ao diálogo, à escuta e à formação integral. “A escola não pode ser apenas um espaço de desempenho acadêmico. Ela é uma via de socialização e precisa acolher, ouvir e dialogar com os interesses da adolescência.”
Ela conclui que investir em educação, arte, cultura e políticas públicas voltadas à juventude não é opcional, mas essencial. “Ou a sociedade assume a responsabilidade de cuidar da infância e da adolescência, ou continuará lidando com as consequências desse abandono.”











