Em Sorriso, controle da erosão e proteção hídrica elevam rentabilidade da soja

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No principal polo sojícola do país, práticas de controle da erosão e de proteção de recursos hídricos deixaram de ser vistas como obstáculo e passaram a impulsionar a rentabilidade no campo. Em Sorriso (a 389 km de Cuiabá), mais de duas décadas de expansão do sistema de plantio direto mostram que a menor perda de solo e a economia de maquinário sustentaram ganhos de produtividade, alavancados por ações de produtores organizados no CAT Sorriso.

Os indicadores confirmam a virada. Sob coordenação do CAT Sorriso, o programa Gente que Produz e Preserva fechou a safra 2024/2025 com 686 mil toneladas de soja reconhecidas pelo padrão RTRS (Round Table on Responsible Soy). Entre 2015 e 2025, o grupo saltou de nove para 53 fazendas certificadas, abrangendo cerca de 290 mil hectares. Em dez anos, os produtores acumularam US$ 7,5 milhões em bonificações vinculadas à certificação.

Os resultados são fruto de uma trajetória que começou com uma preocupação concreta: impedir que a própria atividade agrícola comprometesse o patrimônio natural do qual depende.

No fim dos anos 1990, Sorriso vivia a abertura de novas áreas, com intenso uso de grades e arados. Sob chuvas fortes, o solo exposto ficava vulnerável à erosão, e parte desse material alcançava rios e nascentes. Preocupado com o quadro, o produtor Darcy Ferrarin — que conheceu o Sistema Plantio Direto ainda jovem, em Cruz Alta (RS), por meio do Clube da Minhoca — reuniu agricultores dispostos a alterar aquela realidade.

Ferrarin assumiu a primeira presidência do CAT Sorriso, criado por produtores empenhados em conservar o solo, respeitar o ambiente e manter a continuidade da produção. O desafio ficava evidente nas chuvas do Cerrado, especialmente em Mato Grosso, relata o agricultor. “Isso era muito danoso, porque principalmente aqui em Mato Grosso, as pancadas de chuva são muito fortes, e o solo desprotegido ocasionava grandes erosões nas áreas de plantio. Consequentemente, havia grandes estragos, com terra que se deslocava para os rios e para cima das nascentes.”

A mobilização acelerou em 2003, quando Sorriso recebeu o 7º Encontro Nacional de Plantio Direto no Cerrado, reunindo especialistas e apresentando experiências do Brasil e do exterior sobre cobertura do solo. A partir dali, o CAT intensificou palestras, encontros e ações de orientação para ampliar a adoção do sistema entre os produtores.

Essa mudança parte de um princípio claro: em vez de revolver continuamente o terreno, o plantio direto preserva a palhada na superfície e reduz as operações de preparo. A cobertura atenua o impacto das chuvas, favorece a infiltração de água e ajuda a manter a fertilidade e a estrutura do solo.

“O sistema de plantio direto foi um avanço extraordinário, uma coisa que chama atenção porque além da economia que se faz de óleo diesel, redução de fertilizante, redução de calcário, porque aquilo que se põe no solo, ele fica por ali e é absorvido pelas raízes da planta e não absorvido por enxurradas”, disse Ferrarin.

Menos custos, mais água no solo e segurança para a produção

O que Darcy Ferrarin observou ao longo de anos no Sistema Plantio Direto também foi quantificado. De acordo com o pesquisador e cientista de solos Dione Castro, vinculado à Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop (MT), o sistema pode economizar até 50 mil litros de diesel por safra em uma propriedade de 2 mil hectares. A redução vem da dispensa de operações como aração e gradagem, o que diminui o desgaste de máquinas, pneus e peças, além dos gastos com mão de obra.

“A economia vai muito além de combustível. Cada passada de trator representa diesel, desgaste de pneu, de peça e trabalho do operador. No sistema de plantio direto, essas operações deixam de existir, e a plantadeira entra diretamente sobre a palhada”, explica o pesquisador.

Em Mato Grosso, onde a soja é frequentemente seguida pelo milho de segunda safra, a agilidade na semeadura vira um trunfo. Ao reduzir o tempo gasto no preparo da terra, o produtor consegue implantar a cultura seguinte com mais rapidez, respeitando as janelas de plantio ditadas pelo clima. “Na minha avaliação, a segunda safra, do jeito que a conhecemos hoje em Mato Grosso, dificilmente existiria sem o plantio direto”, afirma Castro.

A conservação dos recursos naturais também se destaca. Estudos da Embrapa realizados em solos do Cerrado, com base em cinco anos de dados, apontaram sete vezes menos perda de solo e três vezes menos perda de água no plantio direto, em comparação ao sistema convencional.

“A palhada funciona como um guarda-chuva, amortecendo o impacto direto da chuva sobre o solo. Isso contribui para a permanência do solo no sistema e também para que a água fique armazenada nele, em vez de ser levada pela enxurrada”, destaca Castro.

A cobertura vegetal, aliada à diversificação e rotação de culturas, promove a ciclagem de nutrientes, melhora a estrutura e aumenta o acúmulo de carbono no solo. Para atingir esses efeitos, o pesquisador reforça a necessidade de manter volume suficiente de palhada e ampliar o conjunto de plantas utilizadas entre as safras.

“Um plantio direto só com soja ou com pouca palhada acumula muito pouco carbono. Precisamos trabalhar com consórcios e culturas que produzam palhada suficiente para proteger o solo por um período maior”, alerta o pesquisador.

Para quem acompanhou de perto as mudanças no sistema de produção, há muito a comemorar ao longo desses 24 anos. “Hoje nós estamos plantando aí com uma tecnologia de ponta, o produtor tem consciência que nós precisamos produzir alimentos de qualidade, mas acima de tudo preservar o meio ambiente”, afirma Darcy Ferrarin.

CAT Sorriso

Fundado há 24 anos, o CAT Sorriso foi criado por produtores rurais como uma associação sem fins lucrativos. A entidade trabalha com difusão de conhecimento e adoção de práticas de conservação ambiental no agronegócio, associadas à produtividade.

Sua lista de projetos inclui recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e educação ambiental, segundo a associação. Também há ações de plantio direto, agricultura regenerativa e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). As iniciativas envolvem famílias do campo e preservação ambiental.

Fonte: RDNews.

Crédito da imagem: Divulgação/Assessoria.

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