Santo António crucificado nos arraiais permanece como símbolo de crise: o nome do santo é arrastado pelas ruas para justificar noites de exagero, ruído e idolatria popular mascarada de devoção.
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Santo António crucificado: a reflexão necessária
Transformaram um Doutor da Igreja num mascote de arraial. O homem que carregava o Evangelho como espada de fogo nas mãos é hoje reduzido a pipocas, pés de moleque, copos erguidos na embriaguez coletiva e multidões anestesiadas pelo barulho.
Aquele que pregava penitência, a conversão e a santidade é hoje homenageado por um povo que dança ao redor do vazio espiritual, como quem celebra sobre as ruínas da própria alma.
Que monstruosa caricatura fizeram de Santo António. Ele foi perseguido porque anunciava verdades que queimavam consciências; as suas palavras eram martelos contra a hipocrisia, trovões contra a corrupção moral, lâminas que rasgavam a podridão escondida sob vestes piedosas.
Santo António não embalava multidões; incomodava-as. Não distribuía entretenimento; distribuía feridas espirituais para arrancar pecadores do inferno em que viviam.
E hoje, há cristãos que se revoltam mais pelo cancelamento de fogo de artifício do que pela ausência de oração. Além disso, há quem chore por um arraial cancelado, mas permaneça indiferente perante igrejas vazias, sacrários esquecidos e altares transformados em palcos de espetáculo.
Há quem saiba de cor o programa das festas e não consiga recitar uma única palavra do Evangelho que Santo António pregou até à exaustão.
É a religião da pipoca e dos fogos. A liturgia do copo plástico. O culto da ignorância coletiva vestido com fitas coloridas e marchas populares.
Usam o nome de Santo António enquanto fazem exatamente aquilo que ele denunciava. E ai de quem ousa dizer a verdade. Tal como no tempo de Santo António, continuam a perseguir aqueles que falam de Cristo sem maquiagem.
Ridicularizam-nos, insultam-nos, afastam-nos, tratam-nos como fanáticos porque recusam transformar a fé num circo popular. O mundo continua a preferir palhaços religiosos a pregadores santos. Prefere luzes artificiais à luz do Evangelho. Prefere o estampido de fogos ao incômodo da consciência acordada pela Verdade.
Santo António foi perseguido porque falava do Céu a homens agarrados à lama. E hoje os seus verdadeiros discípulos continuam a sofrer o mesmo: são odiados porque se recusam a ajoelhar perante o deus moderno do entretenimento religioso.
Portanto, a leitura de Santo António crucificado ainda pode orientar fiéis atentos.
Talvez o mais trágico não seja a existência dos arraiais. O mais trágico é chamarem-lhe devoção. Porque devoção sem conversão é apenas teatro espiritual.
E há festas ditas “em honra dos santos” que insultam mais o Céu do que honram a Terra.
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