A Polícia Federal enfrenta desafios consideráveis para decifrar os complexos códigos utilizados em conversas entre lobistas e operadores do suposto mercado de sentenças judiciais. Essa prática visa dificultar o rastreamento das comunicações via WhatsApp, conforme aponta a corporação.
Desafios no Mercado de Sentenças Judiciais
O reconhecimento da dificuldade em decifrar esses códigos é parte do relatório da Operação Sisamnes. Portanto, a investigação apura a existência de um allegedo ‘clube de compras’ de decisões judiciais milionárias. A complexidade desses disfarces é uma barreira significativa.
As suspeitas recaem sobre o advogado matogrossense Roberto Zampieri, visto como o principal articulador. Ele teria criado um sistema de mensagens cifradas a mando de Andreson de Oliveira, apontado como líder do esquema financeiro. Zampieri foi assassinado em dezembro de 2023.
Andreson, que estava em prisão domiciliar, retornou ao regime fechado após pedido da Procuradoria Geral da República. Ele se encontra no presídio da Papuda, em Brasília. No entanto, seus advogados afirmam que a defesa segue estritamente o sigilo imposto à investigação.
Estrutura Cifrada para Blindagem Comunicacional
A estrutura codificada funcionava com três mecanismos centrais para mascarar o mercado de sentenças judiciais. Primeiramente, eram criados contatos com designações genéricas como ‘pedreiro’ ou ‘piscineiro’. Isso dava uma aparência banal a conversas estratégicas sobre negociação de sentenças.
Ademais, o segundo mecanismo envolvia referências a processos, como ‘Ronaldo Lago X’. Isso permitia vincular contatos a procedimentos judiciais sem revelar sua natureza diretamente. O terceiro método, o mais recorrente, consistia no uso de iniciais ou fragmentos de nomes, criando contatos artificiais e referências veladas.
O celular de Zampieri, periciado após seu assassinato, revelou inúmeros contatos com nomes atípicos. Exemplos incluem ‘Otto Filho Getulio Vilela Energia Vilela’ e ‘Rubens faz GMB Santiago do Norre Araguari’. Essa prática permitia que os contatos fossem salvos de modo aparentemente banal, mas preservava referências internas, conferindo plausibilidade externa às conversas.
Mensagens Codificadas e Leilões de Cavalos
A PF também identificou mensagens ‘aparentemente triviais’ que revelavam bordões clássicos do grupo. Expressões como “a obra está pronta” significavam uma minuta finalizada. “Faltam os retoques do patrão” indicava a necessidade de assinatura pelo magistrado. Por outro lado, “orçamento” referia-se ao custo da sentença.
Uma das mensagens suspeitas, enviada em 21 de março de 2023, questionava sobre previsão para títulos vencidos, possivelmente codificada. Outra, de 18 de julho de 2023, descrevia um assalto a mão armada, mas pode ter um significado oculto. O Estadão busca contato com os emissores destas mensagens para esclarecimentos.
Uma técnica de camuflagem notável envolvia anúncios e catálogos de leilões de cavalos. Esses arquivos de aparência comercial poderiam conter referências cifradas. Alguns nomes e expressões pareciam ter relação fonética ou semântica com pessoas ligadas ao esquema. A engenhosidade dos criminosos era evidente.
Além disso, documentos em trâmite em gabinetes de ministros do STJ foram empregados como ‘veículo de instruções codificadas’. Frases sublinhadas ou destaques gráficos eram inseridos em petições para comunicação. Para um observador externo, eram ênfases textuais; para o grupo, orientações concretas.
Operadores do esquema também usaram números de telefone descartáveis ou de ‘linhas de fachada’. Essa técnica, conhecida como ‘burner phones’, dificultava a correlação entre número e usuário. Consequentemente, aparelhos e SIM cards eram registrados em nome de terceiros, como advogados.
Em síntese, a blindagem comunicacional combinava nomes-personagens, documentos camuflados e aparelhos de fachada. Assim, o objetivo era mascarar identidades e interromper trilhas cadastrais. A investigação deverá se aprofundar nas mensagens cifradas nas próximas diligências, buscando desvendar completamente o mercado de sentenças judiciais.
A defesa de Andreson de Oliveira contesta a decisão de retorno ao regime fechado, alegando problemas de saúde não considerados. Eles afirmam que o laudo do IML comprova um diagnóstico médico. Portanto, a decisão é considerada surpreendente e desfundamentada.
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