A história de Mãe Bonifácia, personagem importante da escravidão em Cuiabá, está ganhando mais espaço nas discussões e na memória da cidade. Um estudo recente se aprofunda na vida dessa figura afro-brasileira, buscando resgatar sua relevância para a educação e a cultura cuiabana.
A pesquisa destaca que existem poucas investigações científicas sobre Mãe Bonifácia. No entanto, sua força é tanta que inspirou um monumento em uma área de preservação do cerrado cuiabano.
O Legado de Mãe Bonifácia
Muitas versões sobre Mãe Bonifácia circulam em Cuiabá, misturando o mundo real com mitos e lendas. Essas narrativas, muitas vezes contraditórias, a descrevem como escrava ou alforriada, benzedeira, conhecedora de ervas medicinais, habilidosa com bordados ou uma auxiliadora para escravizados que fugiam para quilombos.
É fundamental entender o contexto histórico e as dinâmicas sociais da época para compreender quem foi Mãe Bonifácia e por que o parque que leva seu nome é tão importante. A pesquisa questiona como e por que o local recebeu essa homenagem.
“Mãe Bonifácia faz parte da memória popular no espaço citadino desde o século XIX, até então invisível e rotulada pelos estigmas racistas no meio social”
A personagem já fazia parte da memória cuiabana desde o século XIX, mas a invisibilidade e os estigmas racistas a mantinham à margem. Foi a partir da década de 1990, com a persistência da memória do local onde viveu, que sua história começou a ganhar força.
O parque Mãe Bonifácia surgiu em um período de reurbanização da capital mato-grossense, coincidindo com o rápido crescimento urbano da Grande Cuiabá.
Um Espaço de Memória e Aprendizagem
Atualmente, o parque é um ponto de encontro para moradores e visitantes, funcionando como um espaço de aprendizagem não formal. Ele resgata a história, a geografia, a cultura e os aspectos sociais e políticos de Cuiabá.
O Córrego do Caixão e o próprio parque remetem à memória de Mãe Bonifácia. Mesmo que no passado tenham sido associados a estigmas, hoje eles ganham visibilidade como locais históricos.
“Tais lugares de memória são uma construção histórica, e o interesse que despertam vem, exatamente, de seu valor como documentos e monumentos reveladores dos processos sociais, dos conflitos, das paixões e dos interesses que, conscientemente ou não, os revestem de uma função icônica.”
Trazer à tona a história da população negra, como a de Mãe Bonifácia, exige um olhar crítico sobre o colonialismo e uma análise cuidadosa das informações disponíveis.
Apesar dos avanços, o apagamento e a invisibilidade da população negra na história brasileira ainda são marcas deixadas pelo período colonial. Muitas histórias como a de Mãe Bonifácia são mantidas vivas pela oralidade e pela memória social, pois a perspectiva branca e patriarcal muitas vezes as silenciou.
A história de Mãe Bonifácia demonstra como personagens que estão na memória social podem se tornar figuras históricas concretas, refutando a ideia de que ela seria apenas uma lenda.
Mãe Bonifácia: Líder e Resistência
As informações sobre Mãe Bonifácia a descrevem como uma mulher à frente de seu tempo, atuante em movimentos sociais e dedicada à própria sobrevivência e à de outros negros. Ela conseguiu se estabelecer e criar laços em sua comunidade, ganhando notoriedade como líder espiritual, rezadeira e parteira.
Sua influência foi tão grande que ela chegou a ter um bairro com seu nome. Seu apoio a escravizados fugitivos foi fundamental para a organização da resistência negra em uma sociedade extremamente hostil.
É importante considerar os aspectos históricos e geográficos que marcaram a vida de Mãe Bonifácia. A região onde viveu, com seu papel militar e proximidade com áreas de refúgio, é hoje conhecida como “Quilombo”.
Mãe Bonifácia se une a outras personalidades negras que lutaram pela liberdade e contribuíram para a formação da comunidade negra em Cuiabá.
“O monumento Mãe Bonifácia não é inócuo, pois a construção de sua imagem e história surge quando as questões raciais ganham visibilidade. Como exemplo, temos a Lei nº 10.639/2003, que inclui o ensino da história e cultura afro-brasileira na Educação Básica”
O reconhecimento da mulher afrodescendente na história de Mato Grosso ganha força, e o parque, oficializado pelo Decreto Estadual nº 1.470/2000, mantém o nome dessa figura como um ícone da história afro-cuiabana.
A história do bairro Quilombo, do parque e do córrego do Caixão nos remete à protagonista Mãe Bonifácia. Sua história reverbera na memória coletiva, consolidando-se na cultura cuiabana.
“O parque pode ser considerado um espaço de apoio à memória de Mãe Bonifácia e de um período histórico em que viveu. Interpretando Nora (2003), o espaço da memória cristalizou Mãe Bonifácia, uma vez que prioriza os valores da sociedade cuiabana de um determinado período.”
O parque se tornou um lugar de memória que desafia a história oficial, integrando Mãe Bonifácia à narrativa histórica de Cuiabá. Sua história refuta a ideia de que negros não tinham mobilidade durante a escravidão.
A trajetória de Mãe Bonifácia nos convida a refletir sobre as estratégias de resistência e reinvenção utilizadas pelos negros para sobreviver e garantir o futuro de seus descendentes, em meio a uma história muitas vezes negada.
Um registro do Tribunal de Relação de 1864 menciona um local chamado “May Bonifácia”, localizado no subúrbio da cidade, próximo a um córrego.
Documentos como este são fundamentais para a construção da história, pois marcam o tempo e deixam rastros materiais que chegam até nós, revelando a história negada de figuras como Mãe Bonifácia.









