A “geração Z “no mercado trabalho: o bem-estar como prioridade!

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Carla Reita Faria Leal e Francielly Rodrigues Cost

 

Se você acompanha os debates sobre o mercado de trabalho, já deve ter se deparado com críticas à nova geração de trabalhadores, tais como: que não querem cumprir horário; que rejeitam empregos precários; que querem trabalhar apenas remotamente ou no mínimo de forma híbrida; que priorizam o lazer em vez de “vestir a camisa da empresa”, dentre outras observações. Mas será que esses profissionais são realmente acomodados, ou estão, na verdade, desafiando um sistema que sempre normalizou o excesso?

Parece-nos que, pela primeira vez, alguém está tendo a coragem de dar um basta aos excessos que foram glamourizados ao longo do tempo, buscando compatibilizar o trabalho e a qualidade de vida.

Enquanto gestores lamentam que “ninguém quer trabalhar” ou da dificuldade de contratar pessoas que se “adequem às regras da empresa”, os fatos revelam, ao nosso ver, apenas uma outra realidade, à qual todos deverão se acostumar.

A chamada “geração Z” – formada por pessoas nascidas entre 1997 e início da década de 2010 – é a que mais busca informações sobre direitos trabalhistas, a que mais denuncia assédio moral e sexual e a primeira a colocar na mesa, já durante a entrevista de emprego, temas antes ignorados ou silenciados, como salário justo, jornada flexível e saúde mental preservada.

Essa geração possui características que podem ser identificadas claramente: seus integrantes valorizam a possibilidade de flexibilizar horários e local de trabalho, priorizando empregos que possam trabalhar remotamente, ou pelo menos de forma híbrida, parte remotamente e parte presencial, o que possibilita conciliar a vida pessoal com a profissional, como mencionado. Buscam também trabalhar em empresas que tenham propósitos, cuja atuação esteja em sintonia com seus valores, que tenham compromissos sociais e/ou ambientais.

Esses jovens almejam oportunidades em empresas que tenham regras estabelecidas sobre plano de carreiras, com oportunidades de crescimento e acompanhamento de seu progresso. A “geração Z” valoriza a liberdade e a autonomia, quer tomar decisões e praticar ou desenvolver suas habilidades.

Ainda, como são mais tolerantes e abertos a diferentes perspectivas e culturas, buscam empresas onde a inclusão e o respeito à diversidade sejam práticas cotidianas.

Como já nasceram sob a égide da tecnologia, os chamados nativos digitais, os jovens da “geração Z” esperam trabalhar em empresas que adotem e integrem a tecnologia em seus processos, sendo multitarefas, já dominam a rápida busca de informações e sua utilização.

Priorizam a saúde mental e a qualidade de vida, por isso procuram empresas que tenham um meio ambiente do trabalho equilibrado como meta e promovam o bem-estar de seus funcionários. Para essa geração, uma comunicação clara e transparente por parte da empresa e de seus superiores hierárquicos é fundamental.

Todavia, o que se constata é um grande desencontro de expectativas no mercado de trabalho, pois muitas empresas ainda operam com mentalidade do século passado, com o presencialismo desnecessário, as horas extras não remuneradas, a ausência de regras claras para ascensão na empresa e os vários tipos assédios permanecem enraizados na cultura organizacional, provocando, além de descontentamento entre os trabalhadores, o seu adoecimento mental.

Nesse ponto, a pandemia serviu como divisor de águas: pesquisa do LinkedIn revela que 86% dos profissionais brasileiros passaram a considerar a saúde mental como prioridade na escolha de empregos após 2020, o que corrobora as mencionadas expectativas dos integrantes da “geração Z”.

Ademais, nunca tivemos tanto acesso a informações sobre direitos trabalhistas, e isso tem tornado insustentável a aceitação de condições que ultrapassem os limites entre produtividade e bem-estar. A fronteira que separa o esforço saudável da exploração está mais nítida do que nunca e, felizmente, sendo defendida por quem se recusa a adoecer para sustentar um sistema ultrapassado.

Por fim, acreditamos que as empresas que queiram ter em seus quadros os jovens da “geração Z” terão que se adaptar às novas demandas dessa parcela da população, oferecendo ambientes de trabalho saudáveis, diversos, inclusivos, flexíveis, com oportunidades de desenvolvimento e com valores alinhados com a sustentabilidade socioambiental, sob pena de não conseguirem formar equipes engajadas e plurais.

*Carla Reita Faria Leal e Francielly Rodrigues Costa são membros do grupo de pesquisa sobre meio ambiente do trabalho da UFMT, o GPMAT.

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