As vacinas salvaram 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS). O número equivale a seis vidas preservadas por minuto, com impacto concentrado na população infantil.
O dado foi destacado pelo pediatra e infectologista Sandoval Carneiro Filho, cooperado da Unimed Cuiabá há 32 anos, em entrevista ao Unicast, podcast da cooperativa, nesta semana.
Ao lado dos antibióticos, o médico classifica os imunizantes como uma das intervenções que mais impactaram a história da humanidade.
Sucesso cria novo desafio
O próprio êxito da imunização trouxe um problema: com doenças graves fora da rotina da população, diminuiu a percepção sobre os riscos que elas representam.
“Quanto mais eficaz é a vacina, menos a doença fica visível”, explica Sandoval, lembrando que difteria, tétano, coqueluche, sarampo e poliomielite já foram muito mais presentes no cotidiano das famílias.
A varíola é a única doença humana completamente erradicada pela vacinação. As demais estão controladas, mas podem voltar a circular quando a cobertura vacinal cai.
O especialista cita sarampo e coqueluche como exemplos que exigem atenção permanente.
“As gerações mais velhas viram doentes com difteria, tétano, coqueluche, sarampo e sequelas de poliomielite. Hoje, os médicos jovens que estão se formando só conhecem essas doenças nos livros e na teoria, sem ver na prática, o que dificulta até o diagnóstico caso apareça um caso. Essas doenças foram controladas pelas vacinas, mas não erradicadas. A única doença humana totalmente erradicada por vacinas foi a varíola, cujo vírus hoje existe apenas em laboratórios de alta segurança. Se baixarmos a cobertura vacinal de outras doenças, podemos ter a reemergência de surtos”, alertou Sandoval.
Adultos e idosos também precisam se vacinar
Apesar da alta adesão às vacinas infantis, o médico alerta que adultos e idosos frequentemente deixam de manter a caderneta atualizada.
No SUS, adultos têm acesso a imunizantes contra hepatite B, difteria e tétano, febre amarela e tríplice viral. Na rede privada, também estão disponíveis vacinas contra pneumococo e meningococo.
Para pessoas acima dos 50 anos, Sandoval destaca a importância da proteção contra o herpes-zóster, que pode provocar dor intensa e comprometer a qualidade de vida.
Gestantes também precisam manter a vacinação em dia. Além de proteger a mãe, algumas vacinas permitem a transferência de anticorpos para o bebê, oferecendo proteção nos primeiros meses de vida.
Pacientes com câncer, doenças reumatológicas, cardiopatias, diabetes, asma ou que utilizam imunossupressores podem ter acesso a imunobiológicos especiais gratuitamente pelo Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRI), mediante encaminhamento médico.
Vacina atrasada não significa começar de novo
Para quem perdeu o prazo de alguma dose, Sandoval orienta que não é necessário reiniciar o esquema vacinal do zero. A recomendação é completar as doses pendentes respeitando os intervalos mínimos.
Em caso de perda completa da carteira e ausência de qualquer registro, o adulto deve procurar orientação profissional para avaliar a necessidade de refazer o esquema indicado para sua faixa etária.
O especialista reforça a importância de buscar informação em fontes confiáveis, como o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Proteção coletiva
Manter a vacinação em dia vai além da proteção individual, segundo Sandoval. Quanto maior a cobertura vacinal, menor a circulação de determinados vírus e bactérias, o que protege também quem não pode receber alguns imunizantes.
O alerta ganha peso diante da retomada de casos de doenças que estavam sob controle. O médico cita a notificação recente de casos de sarampo em São Paulo como exemplo da necessidade de manter a atenção sobre a cobertura vacinal.
O desenvolvimento dos imunizantes passa por rigoroso processo de avaliação, com estudos pré-clínicos e três fases de testes clínicos antes da liberação. Depois disso, a segurança continua sendo monitorada.
“Foi notificado recentemente o 15º caso de sarampo no estado de São Paulo. Vacinar não é uma atitude individual, é uma atitude coletiva. Prefiro o termo imunidade coletiva, em vez de “imunidade de rebanho”. Quando a maioria se vacina, a circulação do vírus cai drasticamente, protegendo inclusive quem é mais vulnerável e não pode tomar a vacina”, reforçou Sandoval.
Futuro
Ao falar sobre o futuro, Sandoval aponta a vacina contra o HIV como um dos grandes avanços que gostaria de ver desenvolvidos. Para ele, um imunizante capaz de prevenir a infecção representaria um marco histórico.
“A vacina contra o HIV. Embora existam tratamentos eficazes, a vacina libertaria os pacientes do uso contínuo de medicamentos e seria um marco para a humanidade”, finalizou.
O episódio completo do Unicast está disponível em https://youtu.be/WpjpGSqxrMI.









