STJ revela que advogado teria pedido interferência de lobista junto a desembargador afastado

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A decisão do ministro João Otávio de Noronha, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou a deflagração da Operação Gemini na segunda-feira (8), revelou que o advogado Bruno Oliveira Castro teria recorrido ao também advogado Roberto Zampieri para influenciar o andamento de um processo sob relatoria do desembargador Dirceu dos Santos, no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT).

Segundo trecho da decisão, Bruno Oliveira Castro teria solicitado a atuação de Zampieri junto a desembargadores da corte mato-grossense para obter uma liminar e, posteriormente, um julgamento favorável.

“De acordo com os elementos extraídos da IPJ n. 014/2025, B. O. C. teria solicitado a R. Z. atuação junto a desembargadores do TJMT para obtenção de liminar e julgamento favorável”, destaca a decisão assinada pelo ministro.

Ainda conforme o documento, após receber o pedido, Zampieri teria acionado o empresário Luciano Cândido Amaral, identificado em sua agenda telefônica como “irmão gêmeo DD”, solicitando que ele “organizasse” a concessão do efeito suspensivo pleiteado no processo. A decisão judicial ressalta que, no dia seguinte à conversa, a liminar teria sido deferida nos exatos termos pretendidos pelos interessados.

O processo citado estava sob relatoria do desembargador Dirceu dos Santos, que está afastado desde março deste ano, e também foi alvo de mandado de busca e apreensão e quebra de sigilos na Operação Gemini.

Citado na decisão, Luciano Candido Amaral é apontado como operador financeiro de Dirceu dos Santos, sendo responsável por pagar despesas pessoais do magistrado, adquirir bens de luxo e movimentar grandes quantias de dinheiro em períodos próximos a decisões consideradas suspeitas pelos investigadores.

As informações vieram à tona a partir da análise do celular de Roberto Zampieri, assassinado em dezembro de 2023, em Cuiabá. Inicialmente apreendido pela Polícia Civil durante as investigações sobre o homicídio, o aparelho revelou indícios de possíveis crimes relacionados ao Judiciário mato-grossense. Posteriormente, o conteúdo foi compartilhado com a Polícia Federal e com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A perícia realizada no telefone identificou Zampieri como um articulador com amplo trânsito entre integrantes do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Desde a descoberta das mensagens, três desembargadores foram afastados de suas funções por suspeita de participação em um esquema de comercialização de sentenças: Dirceu dos Santos, Sebastião de Moraes Filho — que posteriormente se aposentou ao atingir a idade limite de 75 anos — e João Ferreira Filho.

FORA DE CONTEXTO

Após ser alvo da operação, Bruno Castro emitiu nota à imprensa afirmando que os diálogos extraídos estão fora de contexto. “No que se refere aos contatos a mim atribuídos, faz-se necessário esclarecer que estão descontextualizados e não correspondem à realidade dos fatos. Jamais solicitei, intermediei ou realizei qualquer tratativa ilícita”, diz a nota.

Bruno de Oliveira alega ainda que já havia procurado o Conselho Nacional de Justiça e a Procuradoria Geral da República para prestar esclarecimentos sobre esses diálogos. “Confio que a apuração, conduzida com imparcialidade, demonstrará exatamente isso, uma vez que sempre exerci a advocacia dentro dos limites da lei, da ética profissional e das prerrogativas da função”, afirma.

ÍNTEGRA DA NOTA:

Diante da Operação “Gemini”, deflagrada nesta data, e das notícias que associaram indevidamente meu nome à investigação em curso, venho a público, com serenidade e firmeza, negar de forma categórica a prática de qualquer ato ilícito no exercício da advocacia.

A propósito, é importante mencionar que, muito antes de qualquer medida judicial, coloquei-me espontaneamente à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos, inclusive perante o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Procuradoria-Geral da República, no interesse da investigação e da verdade.

No que se refere aos contatos a mim atribuídos, faz-se necessário esclarecer que estão descontextualizados e não correspondem à realidade dos fatos. Jamais solicitei, intermediei ou realizei qualquer tratativa ilícita.

Por conseguinte, confio que a apuração, conduzida com imparcialidade, demonstrará exatamente isso, uma vez que sempre exerci a advocacia dentro dos limites da lei, da ética profissional e das prerrogativas da função.

Registro, por fim, minha confiança na Justiça e nas instituições, bem como meu integral respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência, certo de que a verdade prevalecerá.

Cuiabá/MT, 08 de junho de 2026.

BRUNO OLIVEIRA CASTRO
OAB/MT 9.237

OPERAÇÃO GEMINI

Nesta segunda-feira, a Polícia Federal realizou Operação Gemini, que teve como principais alvos, além de Dirceu dos Santos, o deputado estadual Faissal Jorge Calil Filho (PL), o empresário Luciano Candido Amaral e o advogado Bruno Oliveira Castro. A operação apura o comércio de decisões judiciais e lavagem de dinheiro.

A PF afirma que o magistrado utilizava pessoas de sua confiança para operacionalizar movimentações financeiras e patrimoniais. Entre elas estaria Luciano Candido Amaral, apontado como responsável por auxiliar no recebimento de vantagens indevidas, na quitação de passivos familiares e em operações imobiliárias supostamente simuladas com a participação de terceiros utilizados como “laranjas”.

As apurações também identificaram movimentações financeiras consideradas atípicas. Segundo a Polícia Federal, foram detectados depósitos e saques em espécie que ultrapassam R$ 3,2 milhões, além de transferências sem justificativa negocial aparente oriundas de empresas do agronegócio que possuíam disputas fundiárias em tramitação no Tribunal de Justiça de Mato Grosso.

Faissal Calil, que trabalhou como assessor no gabinete de Dirceu entre 2017 e 2018, teria articulado para que um recurso caísse para a relatoria do magistrado. O objetivo seria beneficiar uma das partes envolvida na causa mediante pagamento de dinheiro.

 

 

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