Mato Grosso lidera, pelo segundo ano consecutivo, o ranking nacional de feminicídios. Os dados, divulgados recentemente pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, chocam e envergonham, pois carregam dor, sangue e silêncio.
Esses números são um reflexo claro de nossas falhas como sociedade. Não se trata apenas de estatística, mas de vidas ceifadas.
A Violência se Esconde no Cotidiano
Casos extremos de feminicídio, como o ocorrido no Rio Grande do Norte, onde uma mulher sofreu 60 socos do namorado em um elevador, são o ápice de uma estrutura profundamente enraizada de violência contra a mulher.
Em Cuiabá, cidade com fortes laços afetivos para muitos, a violência se manifesta de formas sutis e brutais. Muitas vezes, o agressor não é um estranho, mas alguém conhecido, admirado e até querido.
Lembro de denúncias contra um fotógrafo, figura presente no meio da comunicação e defensor de causas progressistas, acusado de abusos contra ex-companheiras. Eu mesma o conhecia, convivi e ri com ele. A incredulidade inicial era palpável: “não podia ser”. Mas era.
Durante o movimento #meuamigosecreto, em 2014, uma postagem revelou a realidade: “um fotógrafo gente boa que bate nas namoradas”. A ficha caiu com força, e o distanciamento se tornou necessário.
Discursos e Realidades Ocultas
O que mais assusta é ver homens se escondendo atrás de discursos bonitos, cercados de amigos engajados, enquanto violentam mulheres física, emocional e psicologicamente.
Em Cuiabá, e em tantos outros lugares, a violência ocorre nas relações afetivas, disfarçada de ciúme, controle, manipulação e gaslighting. O gaslighting é uma forma de abuso psicológico onde o agressor distorce a realidade, fazendo a vítima questionar sua própria percepção.
A cultura que aceita uma mulher triste casada em detrimento de uma solteira feliz perpetua situações de vulnerabilidade, buscando uma falsa aceitação social.
Enquanto isso, homens com essa “pele de cordeiro” se sentem no direito de perpetuar a cultura de posse, esnobação e traição, muitas vezes motivados pelo desejo sobre as mulheres.
A manipulação, a fragilidade emocional e a dependência afetiva são usadas como armas em um ciclo de abusos que, inicialmente inofensivo, torna-se arrebatador com o tempo.
Esse ciclo só é rompido quando a dor se torna insuportável, rotulando a mulher como “louca” ou “desequilibrada”, prejudicando sua vida emocional, psicológica e profissional.
A Coragem da Denúncia
A mulher que denuncia não é “louca”, é corajosa. É uma sobrevivente. O lugar que ocupa é solitário e doloroso, especialmente quando o agressor nega tudo e se faz de vítima.
Mesmo diante de relatos, testemunhos e boletins de ocorrência, o agressor se refugia na pose de “profissional querido e amigo dos amigos”. Isso não se resume ao fotógrafo citado, mas a muitos outros.
Um Chamado à Reflexão e Ação
É urgente repensar as relações que cultivamos e observar com mais atenção os comportamentos que normalizamos. O perigo nem sempre está no desconhecido; às vezes, está ao lado, no homem sorridente e considerado “gente boa”.
A pergunta que fica é: até quando vamos ignorar os sinais? Até quando vamos nos calar diante de histórias que se repetem?
Não podemos mais permitir que a violência seja normalizada em nome de reputação, afeto ou uma falsa imagem de bom moço. Não dá mais para esperar.
Enquanto hesitamos, continuamos morrendo e sendo violentadas a cada dia. A jornalista e artista visual Simone Ishizuka (Sika) nos convida a essa reflexão profunda.










